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Goleiro Bruno vai sair da prisão: por que eles sempre se safam?

Homens que cometem violência contra a mulher raramente são punidos devidamente – especialmente quando são famosos

Em 2010, um crime chocou o país. Bruno Fernandes, então goleiro do Flamengo, planejou e executou o sequestro, assassinato e ocultação do corpo da modelo Eliza Samudio. Mãe do filho do goleiro, que na época tinha apenas poucos meses de vida, Eliza já havia registrado boletim de ocorrência acusando Bruno de violência. Não foi protegida pela justiça, e, vítima de feminicídio, até hoje o paradeiro de seu corpo é desconhecido.
Em 2013, um julgamento que durou 4 dias condenou Bruno a 22 anos e 3 meses de prisão, pelo sequestro do filho Bruno Samudio e pela morte e ocultação de cadáver de Eliza.
Em 2017, Bruno será libertado da prisão, por meio de um habeas corpus concedido pelo ministro do Superior Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello. De acordo com o ministro, “A esta altura, sem culpa formada, o paciente está preso há 6 anos e 7 meses. Nada, absolutamente nada, justifica tal fato. A complexidade do processo pode conduzir ao atraso na apreciação da apelação, mas jamais à projeção, no tempo, de custódia que se tem com a natureza de provisória.”
Na época do julgamento, o júri decidiu que Bruno fosse impedido de recorrer em liberdade, devido ao grande clamor da população por justiça. Marco Aurélio Mello, em sua decisão, defende que o clamor social não é suficiente para manter Bruno na prisão enquanto aguarda pelo julgamento em segunda instância.
Eles sempre se safam
A concessão da liberdade a Bruno nos faz lembrar de que mulheres vítimas de violência quase nunca podem contar com a punição dos criminosos. Não são raros os casos de homens que, acusados de violência contra mulheres, não só saem impunes como também têm a reputação intocada.
Os atores Sean Penn, Sean Connery, Bill Murray, Charlie Sheen, Nicolas Cage, Johnny Depp, Casey Affleck, Dado Dolabella e Kadu Moliterno, entre muitos outros, foram acusados de agredirem ou defender a agressão de mulheres.
Em vez de caírem no ostracismo – como seria esperado -, muitos desses homens continuam trabalhando e sendo celebrados como se nada houvesse. Sean Penn, que torturou Madonna por nove horas em 1987, de lá para cá ganhou prêmios como o Oscar e é conhecido por defender causas sociais, trabalhar pelo Haiti e mais. A violência contra a mulher não passa de um borrão bem desbotado em seu currículo.
O ator Casey Affleck – forte concorrente ao Oscar de melhor ator neste ano – foi processado por abuso sexual por duas mulheres que trabalharam com ele no filme “Joaquin Phoenix: I’m Still Here”. Apesar das duas indicações, aparentemente não há problemas – um abusador sexual pode ser celebrado pela indústria do cinema e premiado. Não há problemas em violentar uma mulher.
Qual a mensagem que fica? Não importa o que os homens façam contra as mulheres, eles podem sair impunes. Essa impunidade tem como resultado dar aos homens a certeza de que assediar, abusar, violentar e até assassinar uma mulher é um crime menor – ou nem mesmo um crime. Até quando?
FONTE: http://mdemulher.abril.com.br/estilo-de-vida/goleiro-bruno-vai-sair-da-prisao-por-que-eles-sempre-se-safam/


A fala do mestre...

Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida

Nildo Lage
menina_asiatica_planta__optConsumir! Consumir! Consumir! A palavra de ordem retiniu por todo o universo. A indústria fast food agiu com presteza e acionou as suas potentes máquinas na eficácia máxima. A missão era matar a fome de uma geração que nunca se sacia. Produzir! As máquinas do consumo tornavam-se cada vez mais eficazes. “Não desliga! É preciso produzir!” Consumir tornou-se status. O planeta entrou na onda: “Vamos comer, abocanhar, gastar mais energia, mais alimentos, mais água. Poluir rios, mares. O mundo é uma indústria que trabalha em alta rotatividade para nos empanturrar!”. A humanidade foi se desenvolvendo; e os biomas, perdendo terreno para a construção de habitação; áreas colossais foram destruídas para criar, plantar. Quando a ficha caiu, o mundo trilhava o caminho que conduzia a um suicídio planetário. O pânico deu início à temporada do dedo em riste: “Foi você!”. “Não, foi ele!” “Eu não, foi você!” Em resumo, fomos nós! Poucos tiveram a integridade de admitir os próprios erros e assumir que estão degustando a própria casa — o planeta.
O comilão
Muitos bem que avisaram: o mundo está impregnado, abordando o limite de produção. Todos os dedos mudaram de direção. São vocês, Estados Unidos! A verdade é que todos são responsáveis por adotarem um modelo de consumo insustentável, impelindo o planeta a produzir mais e mais para saciar uma sede incontrolável.
Para ostentar a imagem de bons moços, acionaram os alarmes dos órgãos de defesa do meio ambiente, e estes desencadearam — ainda na década de 1960 — a revolução ambiental norte-americana.
Uma década depois, o continente europeu abriu um olho e viu que não poderia permanecer na berlinda. Então, disparou os alarmes alertando outros que avançavam em franca evolução, como Nova Zelândia, Canadá, Japão, Austrália, salientando apreensão com a vida, o que aparentou ser tão somente euforia, pois muito pouco foi feito.
Abordamos a década de 1980. Novos alarmes, novos movimentos percorrem, chegam à América Latina, à Europa Oriental, enveredam pelo sul e leste da Ásia e alcançam a União Soviética. A apreensão alça voo, inquieta os grandes; grupos globais começam a se formar com o intuito de conter o avanço, proteger o meio ambiente. Um mal-avisado brada: “Se o meio ambiente é garantia da vida, vamos proteger o ambiente inteiro!”.
Foi o grito. Conferências e mais conferências. Um fórum após o outro. Poucos deram ouvidos. As empresas, num dissimulado “Oh que desgraça!”, interromperam os passos para apreciarem a destruição. Meras farsas para ostentar as aparências, camuflar ações e intenções (salientando que “cumpriam” o protocolo do mercado verde).
A deglutição aumentou, a produção seguiu o ritmo. A devastação avançou a passos largos e, num piscar de olhos, surgiu uma realidade drástica. O planeta emanou sinais de que estava febril. A Eco-92 atraiu para a cidade do Rio de Janeiro as potências consumidoras do planeta. A realidade apresentada acendeu pânico, tremores. Depois de bate-bocas acalorados, a reconciliação. Dessa união, nasceu a Agenda 21. Badalada, discutida. Mal os glutões regressaram para casa, ela foi esquecida no capítulo seguinte da saga Vamos devorar o planeta e avançaram para não perderem o contato com aquele que afirma ser o futuro. O professor.
Investimentos e mais investimentos. Desmatamento e mais desmatamento. Uma nuvem negra abrolha no horizonte. Os precavidos ambientalistas bradam: “Parem com o avanço. A temperatura vai ascender; e a água, esvaecer!”. O arrogante moço do progresso debochou: “Isso é papo de jacaré tomando sol à beira da lagoa!”. Máquinas foram religadas, e a devastação prosseguiu.
Não teve jeito. As trombetas soaram proclamando o Juízo Final. Mudanças climáticas que provocaram cadências de catástrofes com inundações assoladoras, estiagens intermináveis. E o tão anunciado monstro Aquecimento Global abriu suas fornalhas para assar uma espécie que, prestes a morrer de sede, não sabe o que fazer para reverter a situação.
Conter ou recuperar?
Corra! Quem sabe ainda dá tempo!
O quadro não é nada animador, pois estudos da World Wide Fund for Nature (WWF), uma das mais respeitadas organizações na área de investigação, conservação e recuperação ambiental, apontam que o planeta perdeu mais de 70% das suas espécies de mamíferos, aves e répteis entre 1970 e 2012, alertando que, se não contermos o avanço, o próximo passo nos levará a um ponto irreversível. Daí por diante, não adiantará chorar ou pedir socorro, pois o responsável por destruir tudo pagará o preço, visto que não terá tempo para chorar a própria dor — o homem que deixará de existir por falta de condições para ostentar a vida no planeta.
planta_plantando_sement_optComprimidos nesse paredão de vida artificial, os biomas brasileiros não têm voz, não são notados, muito menos respeitados. O alerta disparado desde a Eco-92 recrutou poucos adeptos. Silenciou no instante seguinte. O desmatamento aumentou, ainda que os estudos alertem insistentemente sobre o aquecimento global e a ausência de água. Instituições aqueceram à medida que a temperatura subia. O Brasil deu as costas para si mesmo. Numa última tentativa, os órgãos salientaram números alarmantes, comprovando que o brasileiro ingere 5,2 litros de agrotóxico por ano, e o governo, que deveria alçar barreiras de proteção aos biomas para garantir a vida, incentiva e investe. Investe tão alto que mais de 80% dos créditos são direcionados ao agronegócio, que 76% das áreas onde se pratica o agronegócio já estão envenenadas e, assim, a agricultura familiar, que garante 72% do alimento à nossa mesa, não tem suporte e transita na contramão, numa constante quebra de braço com o agronegócio, que só entrega míseros 30%.
É preciso consciência, ação conjunta para formar o exército para a defesa da vida, um despertar coletivo. A floresta amazônica, o bioma mais importante do planeta, cuja biodiversidade é desafio para pesquisadores, está sendo devastada; a mata atlântica, que garante um índice pluvial superior ao da Amazônia, restringirá a cada dia o volume das chuvas, fazendo com que a prática da agricultura em algumas áreas reduza drasticamente; o cerrado, mesmo ostentando um clima quente e seco no Brasil Central, é vítima do predador agronegócio que o abocanha para cultivar a soja; a caatinga, que, por ocupar grandes áreas, excepcionalmente no Nordeste, é o menos agredido por uma razão simples: altas temperaturas e longos períodos de estiagem, assim não desperta — por enquanto — o desejo dos latifúndiários e do agronegócio; os pampas, que predominam no território rio-grandense e se alastram por terras ricas, são perseguidos pelo agronegócio por serem propícios ao cultivo do trigo, da soja, do milho e do arroz. A pecuária. O pantanal. Ninguém sobrevive. Todos os nossos biomas estão sendo devastados e suprimidos.
O Código Florestal foi engavetado, suas regras não refreiam o avanço de ocupações e explorações em áreas de preservação nos diversos biomas, pois as degradações dos bens naturais não preocupam a grande maioria que não pensa no planeta. Até mesmo órgãos e instituições fazem vista grossa ante os crimes descomunais.
Amanhã pode ser tarde demais para agirmos, pois hoje não existe absolutamente nada além do cumprimento de acordos de fachada. Falta tudo, compromisso, responsabilidade. Respeito à vida, excepcionalmente, com as novas gerações. Por um fator que todos conhecem, carência de iniciativas para gerarem mecanismos que atenuem o aquecimento de um planeta prestes a explodir, por não suportar produzir para saciar a fome de seus habitantes que se fartam e nunca se saciam.
Falarmos de consciência ambiental é perda de tempo; muito mais, em desenvolvimento sustentável. Temos certeza de que estamos destruindo, compreendemos que a sustentabilidade é o caminho de produzirmos sem devastar. A lei que os governantes mais conhecem é a Lei de Responsabilidade Fiscal. Contudo, desviam recursos, e quem deveria punir faz vista grossa. E, no fritar dos ovos, não sai nada. Esse nada pode fritar outros ovos de espécies raras, pois o aquecimento global promete chegar a um nível cuja temperatura fritará ovos na pedra. É questão de tempo. E o governo? Os órgãos competentes? De braços cruzados e olhos voltados para os próprios interesses. Os biomas? Abandonados na UTI ou devorados dia após dia.
E, assim, a consciência se vai, pois certeza todos temos. Certeza de que, se não reduzirmos a devastação, atrairemos tragédias inimagináveis — secas infindáveis e enchentes assoladoras, e o tão temido aumento da temperatura sobrevirá, especialmente se ocorrer a savanalização da Amazônia, pois o solo amazônico é riquíssimo em ozônio, o que provocará um aquecimento global sem domínio no planeta.
QUE PLANETA? Uma terra sem rumo, sem clima definido, pois o único ser consciente que a habita, responsável por protegê-la para garantir a existência da própria espécie, não está nem aí para a vida, por dar preferência ao econômico, e tais atividades — pecuária e plantações de cana-de-açúcar, palma de azeite, grãos e outros — são imprescindíveis. O Brasil e o mundo têm fome de progresso, e o predador avança na contramão dos biomas, exigindo o seu espaço para que as super-hidrelétricas abram novas vias para escoamento da produção, a extração de minérios. O progresso avança projetado pelo megaGPS que não desvia a sua rota nem para a direita nem para a esquerda, pois seu martelo, quando bate, dá uma sentença implacável: condenar os biomas em prol de seu avanço.
Enquanto o capital competir com a vida, alçando mais e mais o dióxido de carbono na atmosfera; enquanto o lucro for mais cotado do que o próprio existir, não teremos contenções. O alvo será sempre o ter, o acumular. Ganhar mais. Essa é a ótica do capitalismo, que vislumbra tudo como oportunidade de aumentar a receita, afrontando o limitado planeta como fonte inesgotável de matérias-primas e, para saciar a fome de ter, ataca brutalmente os biomas. O clima que se adapte ao seu sistema, pois este não pode mudar; é mais fácil gerar capital para controlar os incêndios florestais, debelar as enchentes, suprir as secas e amenizar os furacões. O que não pode ser contido é a ostentação capitalista, por ser a pedra fundamental da organização da sociedade humana. Todavia, na paisagem pintada pelo capitalismo, salienta-se um planeta com tonalidades cinza, de paisagens áridas, onde o aroma das flores será substituído pelo odor da morte.
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O reflexo do descaso é a tragédia de Mariana. A Samarco foi alertada, notificada. Fez vista grossa. O prenúncio da tragédia não sensibilizou os responsáveis. Não teve jeito, sobreveio. Passou-se um ano, e quem foi punido? Ninguém! A Samarco afiança de que está fazendo tudo certinho, e as consequências do maior desastre ambiental do País salientam as suas vítimas completamente desamparadas. Para se ter noção da destruição, basta iniciar por Gesteira, no município de Barra Longa, no Estado de Minas Gerais; o verde do pasto desmereceu. Não se vê animais pastando, apenas desolação; não há mais riacho, pois o vale por onde corria converteu-se numa lagoa de lama de rejeitos de minérios de ferro e manganês. E a Samarco? Operando para reverter a situação, segundo seus gestores.
Os impactos do rompimento, não abalaram os predadores, que cruzaram os braços e, confortavelmente, apreciaram as inúmeras toneladas de lama tóxica progredirem pelo leito do Rio Doce, assolando a vida aquática. Dias depois, a alegria das margens esvaeceu. Imperou o silêncio. Tudo o que se ouvia eram soluços, gemidos das comunidades ribeirinhas que pranteiam a morte do Rio Doce. Foi-se a vida, foi-se o sustento. E a Samarco? Agindo!
O tempo transcorre, a agricultura e a pecuária recuam. Milhares de famílias estão sem água. Essas famílias, que se instaram nos mais de seiscentos quilômetros de ambas as margens, apreciam desoladas a fonte de vida avançar cansada, arrastando os rejeitos tóxicos que afetaram um dos maiores pontos de desova de peixes marinhos do mundo. Como todo rio corre para o mar, o Rio Doce não poderia ser uma exceção, vazou no Atlântico impregnado de resíduos venenosos.
Enquanto isso, as espécies do bioma planalto central, resistentes a todas as variações climáticas, engalfinham-se pleiteando divisas; outros correm de um lado para o outro, esquivam-se, elevam barreiras, fazem delações para sobreviver às operações das predadoras Lava Jato, Acarajé, Custo Brasil, Zelotes, Acrônimo… A caçada é de uma dimensão que deixou completamente à vontade os predadores dos nossos biomas, e tudo o que se ouve são brados do bioma amazônico que grita: “Socorro!”. O bioma cerrado que grita: “Socorro!”. O bioma mata atlântica que grita: “Socorro!”. O bioma caatinga que grita: “Socorro!”. E a vida? Esta pede licença para prosseguir de encontro ao fim. Agronegócio, extração mineral e vegetal, pecuária e hidrelétricas são mais importantes para um ser que necessita dos biomas preservados para ostentar a própria vida: o homem.
FONTE: http://www.construirnoticias.com.br/fraternidade-biomas-brasileiros-e-defesa-da-vida-2/

Neurociência na educação

Reflexões acerca do processo de adaptação escolar e aprendizagem

Rosangela Nieto de Albuquerque
O processo de escolarização e aprendizagem é complexo e, muitas vezes, de tensão para pais, professores e educandos. Observa-se que a complexidade se estabelece com mais frequência nos seis primeiros anos de vida. Essa etapa da vida da criança pode gerar temor e muitas expectativas diante das mudanças que ocorrerão. Assim, tanto o processo de institucionalização quanto o de aprendizagem gera o que Díaz (2011) chama de modificação externa (comportamental) e interna (psicológica, psicofisiológica e química).
No início da vida escolar da criança, o processo de adaptação dela na escola gera modificação da rotina, tanto da criança quanto da família, e cria novas expectativas, que são naturais no processo de socialização. A adaptação ao ambiente e às pessoas, as experiências e as novas rotinas fazem parte do processo de aprendizagem (VYGOTSKY, 1989). A rotina escolar consta de aulas, atividades, tarefas, leitura, escrita, desenhos, brincadeiras, rituais e procedimentos que, algumas vezes, podem ser opressores ou libertários (FREIRE, 1981). Esse movimento dialético, no entanto, caracterizado como quebra de rotina, proporciona situações ora prazerosas, ora de desconforto. Algumas famílias e educadores experimentam o desconforto como se estivessem em situação de crise.
A situação de crise representa uma situação-problema vital, no qual a criança se depara em uma circunstância nova e desconhecida e que é levada a aceitar, mesmo que em alguns casos discorde. A Psicologia Ecológica caracteriza esse momento vivido pela criança como processo de adaptação da criança a seu universo pessoal, composto pelo espaço mental, no qual se insere o outro (a professora, os colegas), junto à totalidade de objetos externos emocionalmente significativos.
Como todo processo de adaptação na escola, as primeiras semanas são importantes para que as crianças sejam mais estimuladas, no sentido de potencializar os primeiros aprendizados e assim estimular o hipocampo a guardar memórias, que serão usadas posteriormente em todo o trabalho de interiorização, adaptação, ambientação e estimulação para novas conexões (RICE; RICE; LOVELL, 1996).
Quando a criança exerce a atividade de sair de casa (relações primárias) para experienciar as relações secundárias, constitui-se uma ação orientadora em seu papel simbólico e universal estabelecendo uma ferramenta de acesso às trocas de experiências com resultados de aprendizagem eficiente (VYGOSTKY, 1989). Desse modo, a aprendizagem é experimentada como um processo complexo imbricado em diversos fatores internos (psicológico e biológico) que interagem entre si e com o meio externo presente na individualidade de aprendizagem de cada pessoa.
Nesse contexto, a aprendizagem se manifesta nas mediações sociais, diante das interferências e da influência dos outros pela forma pessoal, coletiva, histórica, cultural e religiosa. Nesse processo coletivo, ocorre também a autoaprendizagem na busca do aprender a aprender, podendo ocorrer também o processo de aprendizagem metacognitivo, constituído de signos internos e imagens autoconstruídas, em que as conexões cerebrais promovem o reconhecimento da criança por meio dos insights (STEVEN, 2005).
É importante que a escola em sua práxis pedagógica valorize os fatores externos dos educandos, com suas interferências e influências multivariadas que se instalam no sujeito. Portanto, com a aprendizagem do mundo que a cerca, como um subproduto da Educação e como produto resultante da atividade humana. Esse processo é mutável mediante a atuação da aprendizagem sobre essa atividade humana, e as emoções são comportamentos em interação com as atividades sociais (TASSINARI, 2013).
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Reflexões acerca do processo de adaptação escolar e o aprendizado
Nas primeiras décadas da vida do homem, o processo de aprendizagem é muito intenso na região do cérebro chamada hipocampo e se constitui como uma sede de análise das entradas sensoriais e da memória de curto prazo, registrando os acontecimentos importantes. A eficácia do aprendizado se dará pela recordação do ambiente domiciliar, através da apresentação de estímulos, como um brinquedo, uma roupa, um perfume. Essa prática pode ser conceituada como estímulos multissensoriais.
Nos primeiros dias da criança na instituição escolar, na Educação Infantil, é importante que ela leve seu brinquedo preferido, a comida de que mais gosta, a papinha predileta; com isso, o professor, diante de uma necessidade, pode usar essas situações afetivas como recurso de recompensa imediata, tão comum na contemporaneidade. O uso dessa estratégia demanda do professor a criatividade para provocar a interação e a adaptação do aluno ao novo (STEVEN, 2005). O método de recompensa e motivação, para a neurociência, funciona como motivador para a realização das atividades e para obter maior atenção (VALLE, 2004).
É importante elaborar um histórico de vida do aluno, registrar quais são as atividades preferidas das crianças, como canções, músicas, jingles, histórias, filmes, piadas, algo apropriado e adequado para o momento de adaptação. É importante que o professor elabore um diagrama, apontando o quantitativo de alunos que gostam de cada atividade, assim terá maior probabilidade de encontrar uma atividade comum a todos ou à maior parte dos alunos.
Outro ponto importante como estratégia para promover a adaptação dos alunos ao contexto escolar é trabalhar a memória. As brincadeiras com jogos de memorização é mais eficaz quando o aluno aprende a repetir. Esse processo é eficaz em todas as fases de vida da pessoa (STEVEN, 2005). É importante que o aluno, ao fazer leituras, sublinhe trechos importantes do livro e, em seguida, faça a transcrição apenas da parte sublinhada. Para os alunos da Educação Infantil, a contagem de história e logo após a recontagem de alguns trechos dessa história pela criança é funcional. Cantar repetidamente alguma parte de uma música é um excelente exercício de memória. As histórias despertam o desenvolvimento de emoções, que ativam a área cerebral responsável pelo comportamento, pela ética e pela cidadania (STEINER, 1998).
Certamente, o processo de aprendizagem se fundamenta na memória e é permeado por uma conjugação de relacionamentos entre os neurônios, que favorece as ações de aprender, lembrar, esquecer, conforme o tipo de memória. Os exercícios irão desenvolver habilidades e aprimorar a capacidade de memória reflexiva, declarativa, operacional, remota ou permanente. A memória é a base da aprendizagem.
Para uma aprendizagem significativa, usar os objetos dos alunos é uma excelente estratégia para estimular que a criança passe a ter domínio de como acionar o seu conhecimento prévio. Para Coll et al. (2000, p. 232), “A aprendizagem será muito mais significativa na medida em que o novo material for incorporado às estruturas de conhecimento de um aluno e adquirir significado para ele a partir da relação com o seu conhecimento prévio”. O conhecimento prévio e o material aprendido no conteúdo escolar serão transformados em novos saberes, que sofrerão o processo de assimilação-acomodação.
Observa-se que há crianças que apresentam pouca contextualização (conceito) de alguns objetos; no entanto, quando o material faz parte do seu meio, elas podem não saber o conceito, mas irão se referir ao objeto pelas lembranças que possuem do seu ambiente domiciliar.
Cabe apontar que os pensamentos abstratos derivados do lobo frontal levam um tempo para se desenvolver que às vezes se estende até mais ou menos os 20 anos de idade do sujeito. Assim, é viável que o professor parta de exemplos e estratégias concretas para atingir ideações abstratas. As informações terão mais eficácia quando elas são colocadas em práticas, pois potencializa em nosso cérebro as conexões nas informações. Sistematicamente o professor deve certificar-se de que a criança está compreendendo, pedindo para ela representar, repetir ou escrever sobre o que ela praticou (AZCOAGA, 1991).
No contexto escolar, as histórias devem acompanhar todo o processo de ensino e aprendizado, pois potencializam e ativam as diversas áreas cerebrais, as emoções e os sentimentos. Pela teoria de Beck, a cognição ativa as emoções e leva uma pessoa a reagir conforme seus pensamentos e suas emoções. As histórias devem sempre apresentar início, meio e fim, para que estimule o córtex pré-frontal, responsável pelo desenvolvimento de habilidades assertivas, com sequência lógica e organização.
Outra prática para atuar junto à criança são as atividades em grupo; portanto, cantar, pintar com tintas, desenhar, dançar em círculo, tocar um instrumento musical e até usar tecnologias (GIL, 2007). Essas atividades estimulam diversos sentidos — sinestésico, visual, auditivo, tátil — e as habilidades sociais.
O cérebro forma padrões agrupados em áreas, como se fossem arquivos divididos por pastas temáticas, que são acessadas a partir do momento que são estimuladas por novas aprendizagens; cabe ao professor estimular a identificação dos padrões, associando-os a padrões já existentes no cérebro da criança.
No período de ingresso da criança na escola, em que se processa a adaptação, o professor deve oportunizar um ambiente tranquilo e de segurança, pois o estresse inibe a aprendizagem, danificando os neurônios do hipocampo, uma importante área da memória de curto prazo. Assim, fortalecer a confiança da criança e trabalhar a relação, criando ambiente confortável, acolhedor, seguro, com rotinas e regras objetivas, padronizadas e com rituais, são fundamentais para não proporcionar estresse.
Vygotsky (1989) enfatiza a importância da interação com o outro no processo de aprendizagem. Observa-se que na contemporaneidade as crianças estão habilitadas para interagir com os grupos sociais e aprender através das tecnologias; portanto, esses instrumentos se agrupam aos outros, isto é, à linguagem verbal, à não verbal, aos toques, aos gestos, e se constituem estímulos que se agrupam a novos elementos no arcabouço que forma as estruturas cerebrais (AZCOAGA, 1991).
As redes neurais, durante o processo de aprendizagem, desde o momento do nascimento, articulam-se e se complementam, consolidando as suas possibilidades de armazenar as informações. A educação e a aprendizagem são um complexo sistema que funciona através das sinapses mais intensas (ANTUNES, 2008). Os estímulos e/ou repetições de comportamentos ativam os circuitos processadores de informações: as memórias são consolidadas no hipocampo; e as emoções, no sistema límbico.
A neurociência busca o aprofundamento dos conhecimentos acerca da região temporal e da fisiologia, no sentido de identificar o mecanismo cerebral e contribuir com a educação e assim entender como ocorre a aprendizagem e qual é a importância dos estímulos nesse processo.
Os alunos podem ser estimulados através de várias técnicas, como jogos com regra, jogos de exercícios, jogos livres, que estimulam a região occipital, levam à identificação e distinção de objetos, articulam o reconhecimento das palavras escritas, oportunizando a compreensão do significante e do significado. É importante adotar estratégias apropriadas para cada aluno e sua faixa etária.
As estratégias pedagógicas potencializam o processo de aprendizagem e proporcionam um ensino adequado ao contexto cognitivo, tornando-se prazerosa a dualidade ensino-aprendizagem. Para isso, é importante que o professor e os educadores envolvidos no processo cognitivo conheçam o funcionamento do cérebro e as contribuições da neurociência.
O sistema educacional e escolar não proporciona condições materiais para se usar estratégias, desse modo é um grande desafio para os professores persistirem nas técnicas de dispositivos neurais, com estímulos às sinapses, no quadro da Educação brasileira. Contudo, é importante que o professor saiba qual a modalidade de aprendizagem do seu aluno e quais objetivos pretende alcançar. Para isso é importante conhecer em profundidade a estratégia mais adequada a usar.
Segundo Valle (2004), as sinapses fortalecem as redes neurais e se estabelecem efetivamente quando o professor utiliza atividades disparadoras do prazer, como, por exemplo, a ludicidade, que está carregada de conteúdos visuais, concretos, que estimulam o aluno a assumir o seu papel ativo; portanto, é um meio efetivo de alcançar os objetivos traçados: interação entre professor e aluno, maior criatividade, articulação das novas informações e construção coletiva e participativa da aprendizagem. Essas estratégias neuropsicológicas e neuropedagógicas tornam as aulas mais atraentes e menos estressantes; assim, os alunos são beneficiados com atividades que ativam a região límbica, ou seja, as emoções.
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Considerações finais
Os alunos aprendem a conviver juntos; desenvolvem o seu conhecimento e o conhecimento do outro; permitem a realização de atividades de resolução de conflitos; alcançam autonomia, solidariedade e responsabilidade; e desenvolvem a área do hipocampo, no sentido de armazenar as memórias. Esse movimento de oportunizar o diálogo, os acordos entre alunos e professores, a elaboração de regras de convivência harmoniosa, certamente, facilitará aos alunos a aprendizagem significativa e a construção do comportamento cidadão.
A Neurociência tem muito a contribuir com a Educação, pois, se os educadores conhecerem como funciona o cérebro, quais são as funções de cada parte e como se processa a aprendizagem e a não aprendizagem poderão traçar estratégias de vivências e uma práxis pedagógica embasada nos dispositivos neurais. O importante é que se inicie, ainda com os pequeninos da Educação Infantil, na hora da adaptação das relações secundárias. É nesse momento que se inicia um processo mágico de bem acolher para desenvolver a sensibilidade; de valorizar a curiosidade da criança, as habilidades sociais, o domínio do espaço, do corpo e das modalidades expressivas. Essa é a oportunidade de incentivar a investigação de desafiar, é assim que o aprendizado fortalece a complexidade das relações pois religa os saberes, envolvendo os outros elementos da realidade, que tem como resultado a produção de compreensão que se desdobra no processo de aprendizagem.
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Rosangela Nieto de Albuquerque é Ph.D. em Educação, pós-doutoranda em Psicologia Social, doutoranda em Psicologia Social, Mestre em Ciências da Linguagem, professora universitária de cursos de graduação e pós-graduação, coordenadora de cursos de pós-graduação em Educação, psicopedagoga clínica e institucional, analista em Gestão Educacional, pedagoga. Autora de projetos em Educação, autora da implantação de uma clínica-escola de Psicopedagogia como projeto social. Autora de três livros: Neuropedagogia e Psicopatologias, Psicoeducação e Neuropsicologia.
E-mail: rosangela.nieto@gmail.com
Referências
ANTUNES, Celso. As inteligências múltiplas e seus estímulos. 14. ed. São Paulo: Papirus, 2008.
ASSÊNCIO-FERREIRA, Vicente José. O que todo professor precisa saber sobre neurologia. São Paulo: Pulso, 2005.
AZCOAGA, Juan. Neurolinguistica e fisiopatologia. Buenos Aires: El Ateneo, 1991.
BARBOSA, Laura Monte Serrat. Dificuldades com a aprendizagem: um olhar clínico. Revista Psicologia, v. 1, n. 1, ago. 2003.
COLL, Cesar et al. O construtivismo na sala de aula. São Paulo: Ática, 2004.
DÍAZ, Félix. O processo de aprendizagem e seus transtornos. Salvador: Edufba, 2011.
Disponível em: .
Acesso em: 08 maio 2016.
FLORES, F. E. V. (Org.). Aprendizagem visceral e integração afetiva. Porto Alegre: Evanglof, 2006.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 10. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.
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RICE, S.; RICE, K.; LOVELL, L. Enriched environments, cortical plasticity and implications for systematic design of instruction. Educ. Technology, 1996, Vol. 36, nº 2, pp. 41-46.
STEINER, Claude M. Educação emocional. Rio de Janeiro: Objetiva, 1998.
STEVEN, Pinker. Como a mente funciona. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
TASSINARI, Ricardo Pereira. Teorias científicas e teorias filosóficas: sobre nossa compreensão do mundo que nos cerca e de nós próprios. In: Anais do Congresso Brasileiro de Psicologia do Desenvolvimento CBPD: Desenvolvimento Humano e Solidariedade. João Pessoa: UFPB, 2013. p. 48. Disponível em: . Acesso em: 07 de maio de 2016.
VYGOTSKY, L. A formação social da mente. 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
VALLE, Luiza Elena Ribeiro do. Neuropsicologia e aprendizagem. São Paulo: Robe, 2004.


FONTE: http://www.construirnoticias.com.br/reflexoes-acerca-do-processo-de-adaptacao-escolar-e-aprendizagem/


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